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Aos olhos da lei!

Atualizado: 14 de ago. de 2024

Nascida em uma família tradicional, Renata havia crescido com um senso de justiça muito particular. Optara pela carreira na magistratura, onde em pouco tempo conseguiu o posto de juíza titular na Vara de Família daquela grande cidade.

Família sempre fora um tema de seu interesse, ela tinha a sua como modelo ideal e alicerce moral para as suas decisões. Naquela manhã ela, como quase todos os dias, julgaria uma causa corriqueira, a fixação de alimentos em função da separação de mais um casal.

Chegou ao Fórum, cumprimentou o segurança que na porta lhe aguardava, subiu para o andar onde ficava o seu tribunal. Antes, porém, passou pelo banheiro para verificar se a sua maquiagem estava consoante a ocasião. Renata aprendera desde cedo que precisava parecer um tanto mais severa e assim impor a sua autoridade.

Um reforço no pó branco reforçou a palidez quase mórbida de sua face já alva. Nos lábios, um tom escuro de vermelho tornaria o seu sorriso sarcástico imperceptível. Ela sentia um prazer visceral em decidir, tinha em suas mãos o poder e gostava de usá-lo com veemência.

Passa pela antessala e troca poucas palavras com as assistentes e com a promotora de justiça do caso. Ambas apresentavam o mesmo semblante cáustico e ameaçador. Uma troca de sorrisos em cumplicidade, afinal seria apenas mais um dia onde ela exerceria sua nobre e renomada função.

Você leu o processo? Quais são as suas considerações a respeito? Pergunta ela a promotora de justiça que agora se levantara meio sem jeito de sua pouco confortável cadeira.

O de sempre meritíssima, mais uma mãe cobrando alimentos de um pai. Creio que acordem um percentual justo, em contrário a senhora arbitra como de costume.

Renata segue para a sala onde a audiência iria ocorrer, assume o seu posto elevado, mais abaixo e a sua frente estendia-se uma mesa ladeada por quatro cadeiras, na cabeceira outra cadeira reservada a promotoria.

Ela informa a sua assistente para chamar as partes, logo estaria terminado. De um lado senta-se a mulher e sua advogada, no outro o homem também com a sua advogada. A audiência é aberta e a promotoria se pronuncia.

A mulher segue calada enquanto o homem tenta argumentar frente ao posto. Ela, a juíza, o interpelava impedindo a sua fala e desconstruindo os seus argumentos. Os homens são todos iguais, pensa ela entre uma fala e outra.

A promotoria segue o mesmo rito, deste modo não haveria de avançar no conflito. O bem-estar das crianças é o que importa, diz ela, indicando que ele era o impeditivo para tal. Ele complementa em sua defesa, por isso devemos considerar os fatos postos no processo, afinal isto não começou aqui.

Não venha me ensinar o meu trabalho cidadão, aponta a promotora em incontido incomodo. Nunca o quis, imaginei que o soubesse fazer, responde ele.

O conflito segue por toda a audiência, não cabia ao homem expor seu entendimento, apenas obedecer ao que ali se poria. Em certo momento, enquanto ele apresentava o conjunto de benefícios e os valores já partilhados com suas crianças, a juíza Renata o interrompe perguntando qual era o valor despendido por ele para isso. Quando ele expôs, ela de imediato considerou. Você paga muito pouco. O homem então questiona, estamos aqui discutindo o bem-estar das crianças ou a minha insolvência financeira? A juíza ruboriza-se e decreta. Fale somente por meio de sua advogada, senhor.

Renata sente uma certa repulsa, mas segura no alto de seu totem de poder, acompanha as falas de acusação e defesa. Após pouco mais de quarenta minutos a audiência termina sem acordo, deste modo caberia a ela decidir.

A promotora de justiça estende a ela o processo, Renata refuta. Não há necessidade. Diz ela segura de sua decisão. Não me interessam os fatos, os contextos, tampouco a disponibilidade frente a necessidade, apenas a decisão. Complementa ela com meio sorriso escurecido pelo batom.

A juíza Renata abre o arquivo modelo que possuía em seu computador, altera as informações relacionadas às partes, fixa o percentual máximo. Decidiu ainda pelo pagamento de sucumbência, ou seja, as custas processuais a advogada da parte vencedora da ação.

Renata finaliza sua sentença alheia aos fatos postos no processo, ela não precisaria ler para saber que todos os pais, exceção ao seu próprio e seu atual marido, eram merecedores de punição.

Ela segue para o seu escritório onde antes de sentar-se a mesa, detêm-se para observar o movimento através da ampla janela. Fixa o seu olhar no horizonte, sentia-se naquele momento a dona de todo o mundo. Detentora da moral e guardiã dos bons costumes. Assim seu pai lhe ensinara ainda na infância.

A justiça Renata! Provocava ela em pensamento. Orgulhosa de si, solicita uma xícara com café. O líquido negro desce por sua garganta, lhe causando uma sensação de conforto. Não pensava mais no caso decidido, agora deveria se preparar para o próximo. Sabia ela que seguiria, mais ou menos, o mesmo tramite.

Sua rotina desde que assumira aquela Vara de Família era em geral a mesma, sentava-se no alto de seu poder e julgava, afinal era isso que se esperava de uma juíza.

Naquela noite, enquanto retornava para casa ouvindo Jazz em seu carro luxuoso, observou pela janela escurecida o veículo parado ao lado. Nele estavam um casal, e naquele momento em que o semáforo estava fechado, eles se beijavam loucamente.

Renata sentiu uma certa inveja do amor e do desejo ali manifestos. Ela sabia que não vivera aquilo em sua vida regrada. Seu atual marido a tratava com a mesma frieza que ela aprendeu a demonstrar em seus julgamentos. Para ela todos os dias eram uma sentença, onde a ré chamava-se Renata.

O semáforo abre, mas antes que ela pudesse arrancar, conferiu novamente o casal que se beijava no carro ao lado. De pronto reconheceu a face doce e amável daquela mulher que a pouco ganhara a causa.

A mulher do carro ao lado levanta uma garrafa de champanhe e toma um gole efusivo diretamente no gargalo. Sorri na alegria de ter conquistado, talvez o amor do homem ao lado, quem sabe em comemoração à sua vitória na causa.

Renata se sentia parte daquilo, afinal fora a via facilitadora daquela conquista. E se tivesse lido e analisado o processo, como de fato deveria ser. Teria ela tomado outra decisão? Ou continuaria baseando-se em suas experiências de vida para parametrizar as vidas alheias?

Esta resposta ela não tinha. Em verdade não queria ter. Apenas fazia aquilo que lhe cabia, não importava os porquês alheios, os detalhes, as motivações e condições, apenas a sua vontade de fazer justiça.

O carro do lado acelera retirando Renata de seu transe momentâneo. Ela também acelera o seu veículo, no rádio toca uma conhecida canção de Tom Jobim cujo título é “Triste”.

Enquanto dirige entre os versos, “triste é viver na solidão, na dor cruel de uma paixão”, ela rememora o seu dia, “o sonhador tem que acordar”, e pensa em poder voltar, “só para me maltratar”, outra vez encerra ela.

A face agora é rubra, sente-se satisfeita pela justiça a pouco feita.

 
 
 

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