Marcelo já não era mais o jovem rebelde de outrora, passara dos quarenta anos acumulando em sua história algumas singelas vitórias, nada de que atualmente pudesse rememorar com orgulho. A crise da meia-idade o acometeu com violência, e quando olhou para trás, deu conta de um tempo perdido naquilo que se conveniou a chamar de passado.
Estava entregue a compulsão. E isto lhe trazia um alívio esperançoso de um amanhã mais profícuo. Seria este o caminho? Se deixar perder no vício que, ao mesmo tempo, em que lhe acalentava a alma, lhe consumia o corpo. Estava certo que sim. Suas doses diárias aumentavam, e com elas, a sensação de precisar a cada dia de mais.
Seus fornecedores estavam certos quando diziam que o caminho não haveria de ser outro. A muito estavam no ramo, saberiam melhor do que ele o que haveria de ser feito. Afinal o futuro estava ali ao alcance de suas mãos por hora tremulas.
Ele alinha cuidadosamente sua droga por sobre a mesa da sala. Contempla a beleza com o olhar marejado e o desejo incontido se apropriar por completo daquilo que, no momento, era o para si mais sagrado.
Muitos diziam que ele deveria largar disso, afinal aos olhos alheios aquilo lhe consumia o cérebro em um processo de degradação irretornável. Mas não! Eram apenas tolos vivendo as suas vazias ilusões. Se haveria uma utopia a ser perseguida, decerto era a que escolheu para si. Sentia-se revigorado a cada novo trago dado em profundo sorvo na substância trazida a ele pelos sábios de plantão.
Aqueles momentos de entrega se faziam em liberdade. O caminhar sedado pelo mundo após o uso inconsequente e desenfreado de seus narcóticos permitia a ele um olhar desconexo dos rotineiros caminhar daqueles que, ao seu entendimento, perambulavam sonâmbulos por calcadas conhecidas.
Ele não seria condenado a uma vida de olhos vendados. Queria mais, e o querer lhe fazia afundar exponencialmente naquilo que o entorpecia.
Acaricia a carreira disposta a sua frente. Ajeita com cuidado cada grão. Sabia que precisaria ainda de muito mais para a sua completa libertação.
Quando começou a usar possuía uma certa resistência, afinal era apenas mais um destituído da luz. Não agora! Ainda não era o sábio desejado, mas estava no caminho correto.
Lembra-se com saudade da primeira vez. O entrar naquela loja, o tatear o volume, o sentir o seu cheiro agridoce. Envergonhado, caminhou com o objeto na mão até o caixa onde cabisbaixo efetuou o pagamento. Saiu dali com a droga oculta em uma sacolinha que escondeu sob o casaco. Sentia-se um criminoso. Mas sabia não o ser.
A ansiedade fez com que ao chegar em casa, não antes de trancar as portas e as janelas, deixasse-se cair no sofá para a sua derradeira experiência. Logo no início sentiu-se forte. Invencível frente as adversidades da vida adulta.
Sabia naquele momento ter feito a escolha certa. Teria fracassado se não fosse por aquele derradeiro livro de autoajuda. Agora, mais maduro e experiente contemplava dispostos por sobre a mesa as capas dos inúmeros volumes de sabedoria e experiência. Ele estava viciado, mas sobretudo empoderado. Ainda vivia só em sua modesta habitação, mas agora sabia, que tudo dependia somente de sua boa e constante intenção.
Afinal, em síntese, era isso a autoajuda.
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